Arquivo de novembro 8th, 2005
Salários não crescem como a geração de empregos
De janeiro a setembro deste ano o país acumula um saldo (admissões – desligamentos) de 1.408.694 empregos formais criados. Desde o início do governo Lula, esse saldo atinge 3,5 milhões de empregos; como comparativo, nos oito anos do governo tucano de FHC o saldo de empregos formais foi de 726 mil. Apesar desse expressivo crescimento nos últimos três anos, os salários não têm acompanhado a mesma tendência: 91,2% dos 1,4 milhão de empregos criados este ano estão na faixa de remuneração de até dois salários mínimos. Os dados são do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do Ministério do Trabalho e Emprego.
Para o presidente da CUT, João Felício, a principal questão é a rotatividade da mão-de-obra: “como há um grande número de desempregados no país, as empresas aproveitam para reduzir custos demitindo quem ganha salários mais altos”.
O assessor do Dieese, Ilmar Ferreira Silva concorda com a avaliação de Felício, mas acrescenta outros motivos, como a entrada no mercado de pessoas sem experiência anterior e os trabalhadores que se aposentam, que contribuem para essa tendência. Entre janeiro e setembro deste ano foram fechados 141,5 mil postos de trabalho cuja remuneração era superior a três salários mínimos. A tabela a seguir mostra a forte concentração de empregos entre as faixas de 1 a 2 salários mínimos; a partir de 3 s.m. verifica-se saldo negativo em todas as faixas.
Esses dados reforçam ainda mais a necessidade e oportunidade da marcha a Brasília, dias 28, 29 e 30, que irá cobrar uma política de recomposição do salário mínimo. Dia 28 os manifestantes se reúnem em Candangolândia, a cerca de 15 quilômetros de Brasília e, de lá, partem dia 29 em caminhada até o centro do poder político, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
Faixa salarial mensal admitidos Desligados Saldo
Em salários mínimos
Até 0,5 142.459 103.815 38.644
0,51 a 1,0 2.847.187 2.031.506 815.681
1,01 a 1,5 12.003.592 9.594.907 2.408.685
1,51 A 2,0 7.077.564 6.130.930 946.634
2,01 a 3,0 5.284.592 5.141.485 143.107
mais de 3,0 3.038.854 3.884.125 -895.271
sem informação 182.676 152.753 29.923
Total 30.576.924 26.999.521 3.577.403
Fonte MTE.Caged – Portal CUT
Elaboração: subseção Dieese CUT Nacional
Descaso com a saúde do trabalhador
Em sua cruzada diária na luta por melhores condições de trabalho e salário para os trabalhadores, temos encontrado grandes obstáculos a serem superados. Os problemas vão desde empresários mal-intencionados que recolhem os impostos da folha de pagamento do empregado e não o repassam aos órgãos competentes, a contratação sem assinar a carteira de trabalho, observação ilegal por câmeras no local de trabalho, enfim, um sem número de ocorrências que não deixamos sem denunciar, apurar e resolver. Mas um tema tem sido recorrente: o descaso com a saúde do trabalhador.
Nos últimos meses temos constatado o aumento vertiginoso dos casos de doenças do trabalho não notificadas pelos empregadores. Os trabalhadores são obrigados a trabalhar mesmo sem as condições de saúde necessárias, quando deveriam ser encaminhados para tratamento médico com a respectiva emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho, a CAT. Há conivência de médicos conveniados que não atestam o problema, e ainda a falta de atenção do INSS quanto aos afastamentos, onde o trabalhador não é informado sobre como proceder ao fim dos primeiros trinta dias de afastamento, perdendo o direito ao auxílio-doença. Não bastasse isso, ao retornarem à empresa estão sendo sumariamente demitidos.
A diretoria do Sindicato não tem deixado por menos. Todos os casos em que os trabalhadores reclamam dos problemas de saúde que são ignorados pelas empresas estão sendo encaminhados ao Centro de Referência em Saúde do Trabalhador – Cerest, recentemente inaugurado. Lá, com profissionais habilitados, pode se constatar ou não a doença do trabalho, quando se emite então a CAT, obrigando a empresa para as providências cabíveis. Outros casos já estão na justiça, visando resguardar os direitos que maus empresários querem causar aos trabalhadores. Na maior cidade de Santa Catarina, não são poucos os casos deste tipo todos os meses. Em média atendemos mensalmente cerca de 60 pessoas. Quantos ainda não procuraram o Sindicato para reclamar?
Em pleno século 21, com empresários e entidades empresariais se vangloriando de serem responsáveis socialmente, de contarem com ISO tal e tal, exibindo jornais internos e placas comemorando “zero” acidentes, tal constatação de abuso é imperdoável e soa mal perante a sociedade, que acredita na palavra destes vendedores de ilusão. Os trabalhadores estão sendo explorados agora até na sua saúde, tudo em nome do acúmulo de capital. Estão cada vez mais ganhando dinheiro sobre o suor do trabalhador, o expondo a problemas de saúde que afetam sua qualidade de vida.
Estamos deflagrando nos próximos dias uma ofensiva contra esses abusos contra a saúde do trabalhador. Vamos divulgar nomes de empresas que estão cometendo este crime contra o trabalhador. Acionaremos o Ministério Público do Trabalho, Delegacia Regional do Trabalho, Ministério do Trabalho, INSS, e todos os órgãos competentes para que façam uma devassa nestas empresas descompromissadas com seus colaboradores em relação à saúde. Assim como já fizemos com as câmeras ilegais e com denúncias de assédio moral, não deixaremos impunes tais absurdos que atingem o trabalhador e sua família. Vamos acabar com este descaso com a saúde do trabalhador.