Arquivo de maio 24th, 2006

Câmbio: será que o problema é mesmo ele?

Publicado por admin 24 maio, 2006 Nenhum Comentário Imprimir

Nos últimos meses o debate sobre o câmbio retornou com alguma força, motivado por setores da economia. Exportadores reclamam que perdem dinheiro com o dólar baixo, e usam isso como desculpa para demissões e as chamadas “reestruturações”, que não passam de disfarce para inibir os trabalhadores com o terror do desemprego. O que chama a atenção neste debate é que, quando o dólar estava supervalorizado frente ao real, os mesmos empresários não só não reclamavam, como também não distribuíam seus lucros com os trabalhadores. Será que o problema é mesmo com o câmbio?
 


Uma reportagem da revista Istoé desta semana (24 de maio – edição 1909), traz à luz um outro olhar sobre o tema. Com o título “O outro lado da moeda”, matéria assinada por Milton Gamez, a revista mostra que com o real valorizado frente ao dólar reduz as receitas das empresas exportadoras, mas por outro lado, essas mesmas empresas ganham, e não é pouco, com as importações de insumos e equipamentos, já que pagam menos por esses produtos, o que permite maior competitividade no comércio exterior. Segundo a matéria, 70% das compras externas são de matérias primas e bens de capital. Com o modelo atual do câmbio flutuante, quem sai ganhando são os consumidores, já que os preços caem e podem ser adquiridos mais facilmente. Interessante, não?


 


Ainda bem que existe uma imprensa não engajada no projeto neoliberal, que consegue produzir matérias isentas e com um ponto de vista diferenciado. Na grande maioria dos jornais, os destaques são para a repetição pura e simples do discurso de alguns setores da economia, que reclamam de altos prejuízos e que por isso, têm de demitir trabalhadores. Já abordamos neste espaço que alguns empresários defendem o modelo chinês de desenvolvimento, ou seja, ausência de direitos trabalhistas e representatividade sindical, jornadas de trabalho escravas de até 14 horas diárias, enfim, o modelo explorador da mão de obra pelo capital. Até empresa que se diz joinvilense tem transferido parte da produção para a China, gerando empregos e impostos lá, contando inclusive com o apoio do Prefeito, que foi aplaudir a ação no outro lado do mundo, detalhe, com dinheiro público. O nosso dinheiro, arrecadado com nossos impostos.


 


Nos últimos três anos, o real valorizou 37% em relação ao dólar. Em 2005, as exportações brasileiras somaram US$ 118,3 bilhões, e até a primeira quinzena de maio deste ano, este número já chega a US$ 43,6 bilhões. As importações, neste início de ano, chegaram a US$ 29,2 bilhões. Outro dado importante e revelador: 9 das 10 maiores exportadoras do país estão entre as maiores importadoras. Por isso, novamente questionamos: será que o problema é o câmbio? Se o modelo é tão ruim mesmo, porque as exportações não caem, mesmo com o dólar tão baixo, como reclamam alguns setores? Onde estavam estes mesmos setores quando o dólar estava nas alturas? Por quê não choravam? Será porque o silêncio garantiu o embolso de lucros enormes?


 


O fato é que a política econômica do Governo Lula, apesar de ainda não ser a dos sonhos dos trabalhadores, é muito melhor que a dos oito anos de Fernando Henrique, capitaneado pelo PSDB e PFL. Além de queda do risco país, recordes na balança comercial, acerto da distribuição de renda através do bolsa-família, aumento dos recursos para habitação, agricultura e tantos outros, o dado mais forte foi divulgado nesta terça-feira (23/5), a geração de mais 569 mil e 506 postos formais de trabalho. Até agora, quase 4 milhões de empregos formais foram criados no Brasil em apenas três anos, contra apenas 700 mil de FHC em oito anos. Enquanto isso, empresas que se dizem nacionais transferem produção para países exploradores da mão de obra. Será que é o câmbio mesmo que incomoda a estes setores? Fica aos leitores a reflexão.


 


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