Encontro busca alternativas para a organização sindical
Os sindicatos buscam rejuvenescimento. Confrontados com uma nova realidade política e econômica, que demanda novas lutas e objetivos, as organizações dos trabalhadores querem encontrar na juventude a renovação necessária para o futuro. Mas os jovens não buscam, ou ao menos não tem buscado os sindicatos. Cresce na América Latina a quantidade de jovens em condições precárias de trabalho – mas não tem havido, de modo geral, uma integração desses jovens com a luta sindical de seus países. Como resolver esse impasse? Como criar uma agenda sindical que reflita as necessidades e anseios do jovem trabalhador, e assim atraí-lo para a militância?
Essas questões foram o centro das discussões no Encontro da Juventude Trabalhadora da Confederação Sindical das Américas (CSA), ocorrido nos dias 10 e 11 de março em São Paulo. Os debates contaram com a presença de representantes de 12 países da América Latina, além do Coordenador de Juventude da Confederação Sindical Internacional (CSI), Philippe Gousenbourger. Em nome das entidades sindicais brasileiras, tivemos Rosana Souza, Secretária Nacional de Juventude da CUT, além dos secretários de Juventude da Força Sindical, Jefferson Coriteac, e da UGT, Elimar Cavaleto. Na pauta das discussões, a avaliação dos resultados de iniciativas anteriores, e a busca de caminhos para uma relação mais harmoniosa entre os sindicatos e os jovens trabalhadores de toda a América Latina.
O Instituto Observatório Social (IOS) participou do encontro, trazendo o debate sobre o uso político das novas tecnologias pelo movimento sindical. “Esse é um tema do qual a juventude tem se apropriado em todo mundo”, afirma Alex Capuano, representante do IOS e coordenador do Projeto Conexão Sindical. “As tecnologias da informação e da comunicação podem ser absolutamente relevantes para a organização, a mobilização, comunicação e a formação sindical”.
“Não há dúvida que os mais impactados pelas mudanças econômicas na região estão na juventude trabalhadora”, diz Rafael Freire, Secretário de Política Econômica e Desenvolvimento Sustentável da CSA. Segundo ele, problemas já graves – como o desemprego, a precarização do trabalho e a baixa sindicalização – agravam-se com a crise econômica nos EUA e Europa, que reflete com força na economia latina e nas políticas dos governos da região.
De qualquer modo, mesmo admitindo que o neoliberalismo gera essa exclusão, o Encontro não se limita ao questionamento desse modelo econômico. “Não podemos parar por aí”, diz Amanda Villatoro,Secretária de Política Sindical e Educação da CSA. “Temos que buscar alternativas políticas e de desenvolvimento. Não dá para encarar os problemas do jovem com discurso politicamente correto, mas sim com atividades concretas num nível muito claro, combatendo as formas de exclusão e de trabalho precarizado”.
Um Encontro como o promovido pela CSA é importante em mais de um sentido. Rafael Freire exemplifica: “Se você pega a juventude trabalhadora da Nicarágua, onde o principal elemento de produção está nas ‘maquillas’, é diferente da juventude aqui no Brasil, que tem políticas públicas desenvolvidas para o jovem e uma estrutura econômica capaz de oferecer empregos, mesmo que precários. E é diferente também da juventude boliviana ou equatoriana, países onde há um elemento rural e indígena muito forte”. Um evento que reúna essas experiências, segundo Freire, permite uma caracterização mais homogênea dessas vivências aparentemente tão diferentes, criando condições para uma ação sindical mais efetiva na região.
Rómulo Vallejo, secretário da juventude da Confederação Autônoma Sindical Classista (CASC) da República Dominicana, concorda e vai além. Para ele, uma reunião como essa também pressiona os governos a aplicarem políticas de emprego que garantam a inclusão dos jovens. “Não estamos apenas compartilhando experiências com outros países”, diz Vallejo, “mas também criando condições para gerar uma agenda conjunta de trabalho, que nos aponte soluções conjuntas para esses desafios”.
Essas discussões permitem também a criação de novas estratégias. Freire lembra o debate que a CUT Brasil trouxe sobre a juventude que ainda não trabalha – um ponto no qual às vezes falta atuação ao movimento sindical. “A necessidade de políticas públicas, de formação escolar e universitária, é fundamental para conformar um programa mais geral. A nossa característica é muito a defesa e a assistência do jovem que já está trabalhando, então esse tipo de debate acrescenta muito e nos traz um novo tipo de demanda”.
Entre as medidas propositivas discutidas no Encontro, está a elaboração de um conjunto de políticas publicas a serem defendidas em cada um dos países. Desde o primeiro emprego, passando por assistência ao jovem, formalização do trabalho e proteção social.
Além disso, há a discussão sobre a estrutura dos sindicatos, inserida no tema da auto-reforma sindical, uma das prioridades da CSA. Os sindicatos são geralmente pouco atrativos para os jovens. Determinar que tipo de sindicato pode reunir em seu interior a diversidade da classe trabalhadora, seja de sexo, de gênero, mas também geracional, é o principal objetivo dessa proposta de reformulação.
Uma integração que, na opinião da CSA, não pode esperar. “Não acreditamos em etapas, como se primeiro você transformasse o sindicato bonitinho para depois entrar o jovem”, realça Rafael Freire. “É tudo ao mesmo tempo! O jovem entra, em uma estrutura que abrace a classe trabalhadora, e a partir daí há um processo de renovação sindical”.
Para Amanda Villatoro, a pergunta “como organizar os jovens?” está errada. “O tema é: como defendemos seus direitos AINDA que não estejam sindicalizados?”. Para ela, na medida em que sentirem que os sindicatos defendem seus direitos fundamentais, os jovens serão atraídos. “É uma mensagem que os sindicatos precisam entender: não é que os jovens precisam nos dizer o que fazer por eles, nós é que devemos falar a eles. Os jovens são fáceis de organizar, o que precisamos é entender os códigos de seus interesses”
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