Senado aprova criação da Comissão da Verdade
O projeto de lei que cria a Comissão da Verdade foi aprovado hoje (26) no Senado, com apoio unânime dos senadores. Com a presença da ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário e de parentes de vítimas da ditadura militar, o parecer favorável ao projeto foi lido pelo relator, senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), ele mesmo exilado político no período da ditadura militar (1964-1985).
O texto prevê a criação de uma comissão com a participação de sete membros indicados pela presidenta da República, Dilma Rousseff, com suporte administrativo e financeiro da Casa Civil. O objetivo será apurar fatos ocorridos entre os anos de 1946 e 1988, entre eles crimes de tortura e assassinato cometidos em nome do Estado brasileiro.
O projeto foi fruto de acordo do governo com a oposição e estabelece também que pessoas que atuam como dirigentes de partidos políticos não poderão integrar a nova comissão. Funcionários públicos civis e militares ficarão obrigados a colaborar com os trabalhos de esclarecimento dos fatos ocorridos no período e outras testemunhas poderão ser convocadas. Também poderão ser solicitadas perícias, mas a comissão não terá qualquer poder punitivo em relação aos crimes que já foram anistiados ou prescritos.
O relator lembrou que o esclarecimento dos fatos é fator fundamental para que a democracia brasileira possa seguir se fortalecendo. “Qualquer que seja o resultado da Comissão da Verdade, a ferida não se fechará. Mas eu espero que nós possamos, no trabalho da Comissão, encontrar uma resposta sobre mistérios com os quais nós convivemos e que não podem subsistir na plenitude da democracia”.
Diversos senadores lembraram que ainda existem corpos de pessoas mortas que não foram encontrados. A localização desses corpos é uma das expectativas criadas com a implementação da comissão. “O que eu quero é seguir em frente, eu sei que as famílias das vítimas vão carregar para sempre essa ferida, como disse no início, não há cura para isso, mas talvez aqueles que foram mais diretamente e duramente atingidos possam se sentir, de alguma forma, reparados, se à luz da democracia puder contribuir para esclarecer as condições em que seus entes queridos pereceram e, inclusive, a autoria desses crimes”, resumiu Ferreira.
A presidenta da sessão, senadora Marta Suplicy (PT-SP), disse que o texto seguirá para sanção da presidenta Dilma Rousseff. “Hoje ela terá uma noite muito feliz”, disse a senadora, lembrando que a presidenta foi torturada durante a ditadura militar.
Ag.Brasil
Documentos revelam que militares ordenavam “eliminação” de guerrilheiros do Araguaia
Os resquícios da ditadura no Brasil ainda atormentam quem sofreu ou perdeu alguém da família ou amigo. Após mais de 20 anos do fim do regime militar, documentos do Comando da Marinha, datados de 1972, mostram a frieza dos repressores. A ordem dos militares era a de matar os integrantes da Guerrilha do Araguaia. A ação era chamada de Operação Papagaio – uma ofensiva das Forças Armadas contra o grupo de militantes de esquerda criado pelo PC do B – e confirma relatos de testemunhas de que comunistas foram mortos mesmo depois de presos.
De acordo com a reportagem da Folha de S. Paulo publicada neste domingo 27, a documentação, que era confidencial até 2010, foi liberada para consulta pública.
Leia alguns trechos dos documentos abaixo:
“A FFE [Força dos Fuzileiros da Esquadra] empenhará um grupamento operativo na região entre Marabá e Araguaína para, em ação conjunta com as demais forças amigas, eliminar os terroristas que atuam naquela região”, afirmam duas “diretivas de planejamento”.
“impedir os terroristas que atuam na margem daquele rio de transporem-no para a margem leste, eliminando-os ou aprisionando-os”.
Da Carta Capital
Dilma quer Comissão da Verdade neste ano
Os ministros Nelson Jobim (Defesa), José Eduardo Cardozo (Justiça) e Maria do Rosário (Direitos Humanos) vão procurar líderes partidários no Congresso para articular a criação da Comissão da Verdade e Justiça, para esclarecer mortes, desaparecimentos e torturas durante a ditadura militar, ainda neste semestre. A mobilização dos ministros começará nas próximas semanas, segundo informou ontem Maria do Rosário, em Genebra.
Apesar dessa articulação pela Comissão da Verdade, a ministra afirmou que a presidenta Dilma Rousseff não tem planos de propor uma revisão da Lei da Anistia. “Não cabe ao Executivo propor isso. Essa deve ser uma questão da sociedade”, disse.
Segundo a ministra, a criação da comissão está entre as prioridades do governo. “Vamos ter um diálogo mais direto com os líderes sobre o significado disso”, explicou. Mas insistiu que o Executivo não irá além disso. “Alguns acham que pode ser a porta para buscar a revisão da Lei da Anistia. Mas nós nos movemos dentro do que está no ordenamento jurídico do Brasil”, afirmou.
“É uma comissão do resgate da memória, do direito de saber o que ocorreu. Não cabe ao Executivo hoje, com os limites que temos, iniciar o debate da anistia. Não é nossa proposta nem está dentro das nossas possibilidades.”
Mensagem
Criticado nos últimos anos por poupar críticas a ditadores, o governo brasileiro tentará passar uma mensagem inequívoca: os direitos humanos estarão no centro da agenda de Dilma Rousseff, tanto em sua política interna como na política externa. Mas fará um alerta: o Brasil não aceitará que crises internacionais, inclusive na Líbia, sejam tratadas de forma unilateral ou por invasões e devem ter sempre uma solução multilateral.
A mensagem será dada hoje na reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, pela ministra Maria do Rosário. O encontro marca a estreia do governo Dilma nos fóruns internacionais de direitos humanos. Regimes autoritários e democracias não escondem a expectativa sobre qual será a posição do novo governo brasileiro.
Ig
Há 27 anos, política salarial da ditadura era derrotada
As greves realizadas pelos metalúrgicos do ABC a partir de 8 de novembro de 1983 foram mais uma etapa de um processo de lutas desencadeadas pelos trabalhadores contra a política econômica de arrocho salarial que o governo do general João Figueiredo quis impor durante todo o ano para o País cumprir o acordo assinado com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Naquele dia 8, cerca de 60 mil trabalhadores entraram em greve e saíram às ruas de São Bernardo para se concentrar no Paço. As paralisações passavam por cima do decreto 2065, baixado pelo governo federal para impor reajuste salarial de, no máximo, 80% da inflação.
Como a inflação atingira 62%, o reajuste seria de apenas 50%. Mas, com a greve, os metalúrgicos do ABC garantiram a reposição integral da inflação, em movimento que se estendeu por todo o País com novas vitórias.
Na prática, aquelas greves sepultaram a política de arrocho salarial da ditadura e desmoralizaram a política econômica do regime militar.
Os decretos 2012, 2024, 2045…
O ano de 1983 foi muito difícil para os trabalhadores. A política econômica recessiva causada pelo acordo com o FMI causou milhares de demissões logo em janeiro. Só a indústria paulista demitiu 47 mil.
Essa situação provocou grande descontentamento social. Na Capital, cerca de cinco mil desempregados promoveram saques e depredações por três dias seguidos na Zona Sul. Os atos culminaram com manifestação que derrubaram as grades do Palácio dos Bandeirantes, acuando o governador Franco Montoro que havia tomado posse um mês antes.
No Rio de Janeiro, supermercados, lojas e caminhões foram saqueados e ônibus apedrejados. No Nordeste, canavieiros cruzaram os braços. Nas refinarias, os petroleiros se mobilizaram.
Greves políticas
Neste clima de grande tensão, Figueiredo obedece ao FMI, para quem salário provoca inflação, e decide conter o poder de compra dos trabalhadores baixando o decreto 2012, em de 1º de fevereiro. O decreto sumia com 10% de inflação no reajuste dos salários mais baixos e limitava em 80% da inflação o reajuste dos salários com valores maiores.
Esse cenário prejudicou a Campanha Salarial de abril. O acordo aprovado com a Fiesp previa aumento real entre 2% e 6%, que não podia ser aplicado por causa do decreto 2012.
Mesmo assim, Figueiredo assinou outro decreto salarial em maio, o de número 2024, que estipulava a reposição total da inflação para quem recebia até sete salários mínimos e 80% da inflação a partir desse valor.
A revolta dos trabalhadores com os sucessivos pacotes salariais cresceu e começaram a estourar greves políticas contra o modelo econômico. Os petroleiros de Paulínia (SP) pararam a produção no dia 6 de julho. No ABC, cerca de 100 mil trabalhadores cruzaram os braços contra a política econômica, o arrocho e o desemprego.
A repressão veio em seguida. O governo estadual jogou a PM contra os trabalhadores e o governo federal interveio em vários sindicatos. Entre eles, o dos Metalúrgicos do ABC.
Decreto cria 38 faixas salariais
No dia 21 de julho, cerca de dois milhões de trabalhadores atendem ao chamado de greve geral feita pela comissão pró- CUT e pararam a produção em cerca de cem cidades, principalmente nas regiões metropolitanas, contra o arrocho.
A repressão foi violenta. Cerca de 1.500 trabalhados foram presos e 100 sindicalistas afastados. Em São Bernardo, a diretoria cassada continuava comandando a categoria, em sala alugada pelo Fundo de Greve em frente à Sede.
Em agosto, a criação da CUT é aprovada e a Central lota as galerias do Congresso para pressionar deputados e senadores a rejeitarem o decreto 2024, mesmo estando em vigor outro decreto, o 2045, que limitava o reajuste salarial em 80% da inflação. Foi a primeira vez desde o golpe militar de 1964 que o Congresso rejeitou um decreto presidencial.
Acuado, o governo baixou o incrível decreto 2064, que criava 38 faixas salariais e garantia a inflação cheia só para quem recebia até três salários mínimos.
Recém-criada, a CUT prepara nova greve geral para o dia 25 de outubro, com manifestações nas grandes cidades.
Ditadura derrotada
No ABC, os metalúrgicos continuam mobilizados. As greves foram retomadas logo que as empresas aplicaram o decreto 2065 e reajustaram os salários em 50% para uma inflação de 62%. Primeiro, as máquinas foram desligadas nas montadoras, depois nas autopeças e nos demais setores.
O retorno ao trabalho foi condicionado ao reajuste integral pelo índice da inflação. As greves foram vitoriosas e um mês após seu início mais de 80% da categoria conquistou a reposição integral.
A luta derrubara os decretos de arrocho salarial, impondo nova derrota à política econômica do governo federal.
Do site ABCD
Memorial homenageia operários mortos durante a ditadura
O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, participa hoje, dia 5, às 18h, em Diadema, da inauguração do memorial “Pessoas Imprescindíveis” em homenagem a quatro operários mortos durante a ditadura militar: os irmãos Devanir José de Carvalho, Joel José de Carvalho e Daniel José de Carvalho, além de Aderval Alves Coqueiro. O memorial fica na subsede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em Diadema (rua Encarnação, 290, Piraporinha).
O memorial é uma iniciativa conjunta da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a Fundação Luterana de Diaconia e a Agência Livre para Informação e integra o projeto Direito à Verdade e à Memória, conduzido pelo Governo Federal desde 2006 com o objetivo de recuperar e divulgar o que aconteceu durante a ditadura militar no Brasil – 1964/1985 -, período marcado pela violência e violações de direitos humanos.
Para o ministro Vannuchi, os memoriais contam à sociedade brasileira histórias de pessoas que deram suas vidas em favor de um regime democrático e livre, em um momento em que no Brasil prevalecia a tortura e execuções. Dezesseis memoriais já foram inaugurados, em oito cidades brasileiras, e se consolidam como sinais permanentes da história na vida do brasileiro, informando sobre o passado e despertando a consciência crítica da população.
O projeto Direito à Verdade e à Memória, conduzido pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, está estruturado em três eixos: a instalação dos memoriais “Pessoas Imprescindíveis”, publicações sobre o tema Direito à Memória e à Verdade – que já reúnem quatro títulos -, e a exposição “A Ditadura Militar no Brasil: 1964-1985”, que já esteve em mais de 50 cidades brasileiras, sendo vista por um público superior a 2,5 milhões de pessoas. Atualmente, a exposição pode ser vista na sub-sede do Sindicato dos Metalúrgicos em Diadema.
Os homenageados:
Devanir José de Carvalho (1943-1971)
Operário metalúrgico no ABC paulista, Devanir José de Carvalho, conhecido pelo codinome Henrique. Militou em diversas organizações e, em 69, vai para o Movimento Revolucionário Tiradentes. Foi preso em abril de 71, em São Paulo, e vai para o Deops. Morre depois de dois dias de tortura.
Joel José de Carvalho (1948-1971)
Gráfico em SP, Joel José de Carvalho seguiu os passos do irmão Devanir na luta contra a ditadura. Preso, torturado e exilado, desapareceu em 1974, quando vivia clandestino no Brasil. A única informação oficial sobre Joel aparece em um relatório do Ministério do Exército, em 1993, afirma que “em 1974, fez parte de um grupo de refugiados brasileiros que entraram clandestinamente no país”. Depois disso, seu rastro e seu corpo desapareceram.
Daniel José de Carvalho (1945-1974)
Motorista e torneiro mecânico das indústrias de São Bernardo e Diadema, Daniel José de Carvalho era membro de uma família de operários de esquerda. Assim como Joel, foi do PCB, PCdoB, Ala Vermelha e MRT. Exilado no Chile e na Argentina, aderiu à VPR. Ao voltar clandestinamente para o Brasil, foi preso na fronteira e é um dos 356 desaparecidos políticos do País.
Aderval Alves Coqueiro (1937-1971)
Metalúrgico, foi preso em maio de 69. Fez parte dos presos políticos trocados pelo embaixador alemão Von Holleben. Foi para a Argélia e Cuba e regressou ao Brasil já integrado ao MRT. Preso em São Paulo em 1969, passou pela 2° Cia de Polícia do Exército, o DOPs paulista e o presídio Tiradentes. Morreu no Rio de Janeiro, em 1971.
CUT em defesa do PNDH 3
A Central Única dos Trabalhadores reafirma seu apoio ao Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) elaborado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República e assinado em decreto pelo presidente Lula no dia 21 de dezembro de 2009.
Para a CUT, o Programa representa o fortalecimento do processo democrático, já que é fruto de amplos debates entre governo e sociedade civil, especialmente, a partir de propostas aprovadas nas conferências nacionais realizadas de 2002 a 2009. Governos anteriores não realizaram conferências e costumavam não dialogar com os movimentos sociais.
“A Conferência Nacional de Comunicação é um exemplo. Nós, entidades dos movimentos, saímos vitoriosos do processo, pois conseguimos aprovar mais de 600 propostas que poderão virar projetos de lei ou balizar políticas públicas da área”, destaca Rosane Bertotti, secretária nacional de Comunicação da CUT. “Várias dessas propostas dialogam diretamente com a Diretriz 22 do PNDH 3, que prevê a garantia do direito à comunicação democrática e ao acesso à informação para a consolidação de uma cultura em direitos humanos”.
Dentre estas propostas está a criação de marco legal que regulamente o artigo 221 da Constituição, sobre a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão, considerando o respeito aos direitos humanos como condição para outorga e renovação. Portanto, as empresas de radiodifusão deverão cumprir o que postula a constituição: preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família. Esta regulamentação prevê mecanismos que permitem suspender patrocínio, publicidade oficial e até mesmo cassar a concessão de canais de rádio e TV que desrespeitem os direitos humanos.
Outro ponto importante que o PNDH 3 propõe e que converge com nossas propostas aprovadas na I CONFECOM é a regulamentação das rádios comunitárias e a promoção de incentivos para que possam se afirmar como instrumentos de diálogo. Também merecem destaque as questões concernentes à inclusão digital e acessibilidade.
A CUT entende que as ações previstas na Diretriz 22 do Programa objetivam fundamentalmente promover o respeito aos diretos humanos nos meios de comunicação e o cumprimento de seu papel social.
“Esta é a democracia que defendemos: que possa garantir o direito à comunicação e ao acesso à informação a todos/as os brasileiros/as”, diz Rosane. “Diante disso, não é possível considerá-las uma ameaça à liberdade de expressão, a não ser a má-fé de alguns, em seu esforço de tentar confundir a opinião pública com informações que distorcem a realidade, característica comum dos proliferadores das práticas que o plano visa combater”, sublinha.
Fonte: CUT Nacional
Carlos Marighella será homenageado em São Paulo
Uma série de atividades em Sâo Paulo lembram, essa semana, os 40 anos da morte do guerrilheiro Carlos Marighella. Na quarta-feira (04), haverá um ato político na na Alameda Casa Branca, nº 806, Jardim Paulista, a partir das 11h, quando serão colocadas flores no local de sua morte. A atividade terá presença da ex-companheira de Marighella, Clara Charf.
Marighella foi executado por agentes do Dops no dia 4 de novembro de 1969 em uma emboscada comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Na noite de quarta, às 18h, será exibido o filme “Mariguella: retrato falado de um guerrilheiro”, de Silvio Tendler, no Salão Nobre da Câmara Municipal. Em seguida, em sessão solene, será concedido a Marighella o título de cidadão paulistano “in memoriam”.
No sábado (07), às 11h, será aberta a exposição “40 anos Marighella Vive”, junto com o lançamento do livro “Carlos, a face oculta do Marighella”, de Edson Teixeira no Memorial da Resistência (Largo General Osório, nº 66, bairro da Luz).
Às 11h, serão apresentados poemas de Carlos Marighella musicados pelo percussionista Dinho Nascimento, acompanhado por Gabriel Nascimento e Cecília Pellegrini. Às 13h, o grupo teatral Ói Nóis Aqui Traveiz apresenta o espetáculo de rua “O Amargo Santo da Purificação”, que conta a vida e a morte de Carlos Marighella, com textos extraídos dos próprios escritos do militante. A apresentação ocorrerá no pátio do estacionamento do Memorial.
Fonte: Ag. Brasil de Fato
Araguaia: criação de Comitê já está no Diário Oficial
Decreto publicado no Diário Oficial da União de hoje (20) cria o Comitê Interinstitucional de Supervisão das Atividades do Grupo de Trabalho formado para localizar, recolher e identificar os corpos dos guerrilheiros e militares mortos na Guerrilha do Araguaia. Farão parte do grupo parentes de mortos e de desaparecidos políticos.
O comitê vai supervisionar e acompanhar as atividades do grupo, incluindo a coleta de depoimentos e o pedido de diligências e de mandados de busca e apreensão de documentos, quando for necessário.
O grupo, liderado pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, vai poder requerer relatórios e indicar novos locais de busca para a produção do documento conclusivo. A criação da operação para localizar mortos da Guerrilha atende a uma determinação judicial para que o país dê respostas sobre o assunto.
Fonte: Ag. Brasil
Governo indeniza 44 camponeses no Araguaia
O agricultor Pedro Matos do Nascimento, de 69 anos, ficou emocionado quando ouviu do juiz que receberá dois salários mínimos (R$930) até o fim da vida. Com uma das mãos fechou os olhos, e com a outra abraçou a esposa, numa cena que demonstra o sofrimento que acompanha a família há décadas.
- Se eu pudesse esquecer esse negócio (tortura), era melhor, mas agora vou viver com menos sofrimento graças à justiça que foi feita hoje (ontem) – disse Nascimento.
Pedro é um dos 44 camponeses vítimas de perseguição militar durante a Guerrilha do Araguaia beneficiados com indenização, concedida ontem pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, durante ato público na praça de São Domingos do Araguaia (PA). Dos 84 processos julgados ontem, 40 foram indeferidos por falta de documentos comprobatórios ou por não se enquadrarem nos casos previstos na Lei de Anistia.
O agricultor Pedro Nascimento foi preso no fim de 1973 e submetido a várias sessões de tortura porque conhecia alguns guerrilheiros. Assim como ele, todas as pessoas beneficiadas com a anistia concedida ontem receberão ainda uma indenização retroativa que varia entre R$80 mil e R$142 mil.
Cerimônia teve participação de 600 moradores A iniciativa, definida pelo governo federal como “ato de reparação coletiva”, aconteceu durante a 24ª Caravana da Anistia, da qual participaram o ministro da Justiça, Tarso Genro, e a governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (PT). A cerimônia contou ainda com a participação de 600 moradores da região, a maioria parentes das vítimas que tiveram ou terão seus casos julgados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.
- Hoje estamos fazendo um reconhecimento, um pedido de perdão formal do Estado brasileiro a todas essas pessoas. Isso representa respeito aos cidadãos brasileiros – definiu o ministro Tarso Genro.
A previsão era de julgar 91 processos, mas sete foram retirados de pauta pelos relatores durante a sessão plenária realizada na última quarta-feira, em Brasília.
As sentenças deferidas ontem em São Domingos do Araguaia só foram possíveis graças à ação do grupo de trabalho que colheu 287 depoimentos naquela região, durante os anos de 2007 e 2008. Os relatos foram cruzados com documentos da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e do Ministério Público. Entre os crimes descobertos estavam torturas, abusos sexuais, trabalho escravo e tomada de terras e casas.
A partir de 1966, membros do PCdoB se instalaram na margem esquerda do Rio Araguaia, no interior do Pará, e instauraram a Guerrilha do Araguaia. Os “paulistas”, como eram conhecidos, foram descobertos pelo Exército e se tornaram alvo de operações militares entre 1972 e 1975. O objetivo dos militantes era montar um exército popular de libertação inspirado no processo revolucionário da China, ocorrido entre 1927 e 1949. Cerca de 70 pessoas, entre militantes e camponeses, foram mortas ou desapareceram.
Fonte: Sindicato do ABC
Uma missa para um torturador..
Uma coroa de flores com o formato e as cores da bandeira nacional enfeita o altar da igreja Nossa Senhora de Fátima, no bairro do Sumaré, capital paulista. Penduradas nela, pequenas faixas com os dizeres, “ordem e progresso” e “herói nacional”. Ao centro, a foto do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos maiores torturadores da ditadura civil-militar (1964-1985), morto há 30 anos.
Cerca de 70 pessoas, entre parentes, amigos, delegados aposentados, representantes da TFP (Tradição, Família e Propriedade) e agentes do serviço reservado da polícia celebraram na noite de quarta-feira (6), o aniversário de três décadas de falecimento de Fleury. Entre eles, estava o delegado aposentado Carlos Alberto Augusto, conhecido como Carlinhos Metralha. Augusto, torturador temido nos porões do regime, integrou a equipe de Fleury e convocou a missa pela internet: “familiares, amigos, ex-policiais do DOPS e informantes contam com sua presença à missa”.
Um dos policiais do serviço reservado trajava calça jeans, jaqueta e boné, lembrava o Lula sindicalista do ABC, com sua barba grande. Não fosse pelos abraços calorosos que distribuía entre os presentes, poderia imaginar tratar-se de um militante da esquerda que sofreu na pele as agruras da ditadura. Ciro Moura, ex-candidato a prefeito, nas últimas eleições, pelo PTC (Partido Trabalhista Cristão), que herdou o número da legenda de Collor, foi o único político a comparecer à cerimônia.
Antes do início da celebração, do lado de fora da igreja, velhos amigos conversavam animadamente, enquanto era distribuído um panfleto com a foto do homenageado e os seguintes dizeres: “Sua morte deixou em nós uma lacuna impreenchível. Só o tempo poderá atenuar a sua perda irreparável para a sociedade brasileira. Dr. Fleury ficará na memória de todos, a sua inesquecível figura que tanto bem semeou. À sua passagem, sempre cumprindo ordens superiores e defendendo a sociedade”. Entre os carros luxuosos que entravam ao estacionamento, havia adesivos colados. Em um se lia referência ao General Heleno, comandante militar da Amazônia. Outros adesivos faziam alusões à defesa do porte de armas.
A igreja Nossa Senhora de Fátima está próxima da sede da Opus Dei, localizada na avenida Alfonso Bovero, e do Centro de Estudos Universitários do Sumaré, mantido pela instituição.
Os presentes à missa do “herói nacional”, a maioria homens, vestiam terno e tinham cabelos brancos. Alguns mais novos, de terno e gravata, usavam broches com a bandeira do Brasil. As poucas mulheres, de cabelos tingidos de loiro ou ruivo, maquiagem pesada, salto alto, meia calça, terninho.
A missa foi celebrada por Frei Yves Terral, que, durante a homília, afirmou que “Fleury teve, há 30 anos, uma feliz ressurreição” e que “estamos reunidos hoje para lembrar sua memória, e não deixar a história morrer”. Durante a cerimônia, que teve início às 19 horas e durou 28 minutos e 45 segundos, o religioso disse frases como: “nós amamos Fleury”, “Deus ama Fleury” e “Estamos reunidos para lembrar o ideal do jovem Fleury, lembrar que ele tinha um ideal”. Na hora do Pai Nosso, Frei Yves pediu aos presentes que orassem “em nome de Jesus e Fleury”.
Yves Terral é um franciscano, da ordem co-irmã a dos freis dominicanos, Tito, Fernando e Ivo barbaramente torturados pelo delegado Fleury. O religioso, que em entrevista disse ser amigo de policiais militares, também celebrou a missa de sétimo dia do coronel da PM Ubiratan Guimarães, assasinado em setembro de 2006. Ubiratan foi o responsável pela invasão da PM paulista ao Complexo Penitenciário do Carandiru, em 1992, que resultou na morte de 111 presos.
O delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury morreu em 1º de maio de 1979, na Ilhabela, litoral norte paulista, de forma misteriosa. Pouco depois de comprar um iate, supostamente caiu no mar e se afogou ao saltar de uma embarcação para a sua. As autoridades policiais da época mandaram que seu corpo fosse enterrado sem ser submetido a necropsia. Fleury estava à frente do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), um dos mais temidos órgãos da repressão, e era o responsável por assassinatos e torturas que ocorriam no local.
O delegado ganhou “notoriedade” quando chefiou o Esquadrão da Morte, milícia clandestina formada por policiais que coalhava de corpos de supostos bandidos os terrenos baldios da periferia de São Paulo e do Rio de Janeiro. Fleury liderou, ainda, o fuzilamento do guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, na Alameda Casa Branca, em São Paulo, em 1969. Ao final da missa, a reportagem conversou com Frei Yves. Confira abaixo:
Lúcia Rodrigues - O senhor considera o Fleury um herói nacional?
Frei Yves Terral - Eu não considero, não. Não vem ao caso isso. Eu sou ministro da eucaristia. Na minha mesa todo mundo, até a direita, pode participar. E o Fleury era um desses casos. Não há o que impeça ele de poder participar de uma eucaristia. Eu estava em Mato Grosso, na época do Fleury.
Tatiana Merlino - O senhor conheceu o delegado Fleury?
Frei Ives Terral - Não, não. Eu estava na faixa de fronteira. Não conheci nem pelos jornais. Os jornais nem chegavam lá. Quando chegavam, era com atraso e era sinal de que não tinha notícia importante no Brasil. Porque quando tinha notícia importante não sobrava para nós. Agora eu acho bonito que celebrem a memória. Herói é uma palavra carregada de poder.
Lúcia Rodrigues – É porque na coroa de flores que estava perto do altar [coroa em formato da bandeira do Brasil, com a foto de Fleury ao centro, em que se lia em uma tarja: herói nacional]…
Frei Yves Terral - Sim, no altar. Era do pessoal que veio. Era dos parentes, da família. Era, seguramente, muito bonita a coroa.
Lúcia Rodrigues - E por que eles escolheram esta paróquia para realizar a missa?
Frei Yves Terral - Diante de muitas possibilidades… Não acho nada de mais.
Tatiana Merlino - Achei que a família frequentasse a paróquia.
Frei Yves Terral - Se frequenta…
Lúcia Rodrigues - O senhor não conhece?
Frei Yves Terral - Não conheço. Eu tenho amigos. Fui chamado para pôr uma imagem de nossa senhora, faz muito tempo, na Polícia Militar, no comando. Encontrei uma turma de jovens oficiais, com formação francesa, cheios de ideal, que realmente me trouxeram admiração. Admiração abre caminho para amizade. Então, eu tenho alguns amigos militares. Talvez entre eles tenham falado: lá tem o frei Yves para rezar por nós. Se amanhã vier a família do Meneguelli [provavelmente se refere a Carlos Marighella] pedir para rezar uma missa aqui, eu vou rezar e vou fazer o que Jesus faz. Se colocar compassivo, do ponto de vista daquela pessoa, daquela família, daqueles amigos.
Tatiana Merlino - Durante a celebração, o senhor disse que o Fleury tinha um ideal.
Frei Yves Terral – Tenho certeza. Sem o conhecer, eu tenho quase absoluta certeza. Todos os oficiais têm um ideal. Pela profissão, tem sempre um risco de vida maior. No início de sua profissão, da vocação, há um ideal. Depois, algumas vezes, diante da realidade, pode ter coisas belíssimas e coisas que alguns podem discordar. Mas Deus não criou gente ruim.
Lúcia Rodrigues - O senhor acha que ele é uma figura polêmica?
Frei Yves Terral - Está na história. Está na história. Só que é uma história que não é contada, por enquanto. O outro lado foi muito bem contado. Porque estão no poder. São sempre os vencedores que contam a história.
Lúcia Rodrigues - Quem são os vencedores?
Frei Yves Terral – Os vencedores que estão no governo atualmente. No PT. Essa história daquele lado está sendo contada. O outro não está e Deus queira que não seja contada tão cedo.
Tatiana Merlino – Deus queira que não seja contada, por quê?
Frei Yves Terral - Porque não está na hora de recomeçar o que foi feito, me parece. Porque estamos numa democracia. Que tem que ser corrigida. Vocês da imprensa sabem muito bem. Vocês embaralham até o Lula.
Lúcia Rodrigues - O Fleury não era um torturador? O senhor rezou durante a missa em nome do Fleury e não pelo Fleury. Eu não sou católica, mas em geral se reza pela alma da pessoa e não em nome da pessoa.
Frei Yves Terral – Não podem me culpar por ter rezado pelo Fleury.
Lúcia Rodrigues - O senhor rezou em nome do Fleury.
Frei Yves - Eu pedi para que a turma que estava meio fria, se manifestasse. Foi uma forma de fazê-los participar. A turma que estava lá, era um pessoal mais reservado. Não era nenhum carnaval, nenhuma vitória do Corinthians. Então, era uma forma deles participarem, era emprestar palavras ao Fleury. Para se manifestarem um pouco. Uma missa não pode ser só o presidente.
Lúcia Rodrigues - O senhor acha que isso ajudou a celebração?
Frei Yves Terral - Ajudou eles a participarem. Senão, não teriam participado. Alguns não teriam participado de nada.
Lúcia Rodrigues - Por quê?
Frei Yves Terral - Não sei. Porque não estão acostumados a participar de uma missa. Por diversos motivos. Tem gente que vai numa missa de sétimo-dia e não fala nada, só segura lágrimas. No Brasil, há tantos tipos de culturas. Graças a Deus. Tem de se conviver. Pode-se rezar uma missa para defuntos de um jeito ou de outro.
Lúcia Rodrigues - Eu entendo a posição do senhor. O senhor é padre e reza por bandidos. O Fleury era um torturador, que assassinou várias pessoas. E o senhor ainda reza em nome dele?
Frei Yves – Espera aí, Espera aí. Eu vivi em Mato Grosso. E tinham umas pessoas que a igreja não mandava abençoar quando morriam. Todas morreram de morte violenta. Eu abençoei todos aqueles que me foram apresentados. Você estava lá?
Lúcia Rodrigues - Onde?
Frei Yves - Quando ele morreu?
Lúcia Rodrigues – Não. Eu era criança.
Frei Yves - Mas Deus estava. Não podemos saber o que aconteceu. Não podemos fazer mau juízo do próximo. Agora, posição política eu não tenho. Eu não sou nem brasileiro.
Tatiana Merlino - O senhor disse que ele tinha um ideal.
Frei Yves - Tinha um ideal.
Tatiana Merlino - Torturando os opositores?
Frei Yves - Isso não foi quando ele era jovem. Foi depois. Deus o criou bom.
Lúcia Rodrigues - Mas dentro de uma igreja, ter uma bandeira nacional com a foto dele, escrito herói nacional… Um torturador não é um herói.
Frei Yves - O mandamento é honrar pai e mãe. É isso que quer dizer a bandeira brasileira. Foi uma honra.
Lúcia Rodrigues - Há quanto tempo o senhor está no Brasil?
Frei Yves - 43 anos.
Tatiana Merlino - E em São Paulo?
Frei Yves – Há 30.
Lúcia Rodrigues - Então o senhor estava aqui quando o Fleury morreu.
Frei Yves - Pode até ser. Mas como teve essa mudança de Mato Grosso para cá, naquela época… Não posso dizer se ele morreu quando eu estava em Mato Grosso ou aqui.
Tatiana Merlino - É claro que para a igreja todos são filhos de Deus. Mas o senhor celebrou a missa com uma simpatia muito especial pelo delegado Fleury.
Frei Yves - O meu Deus é compassivo. O meu Deus é compassivo. Ele se põe do ponto de vista da pessoa. A senhora procure se por do ponto de vista de Jesus.
Tatiana Merlino - O senhor sabia que o delegado Fleury era um torturador?
Frei Yves - Eu sabia que era um homem político, que contestava. Que teve uma história não apenas de um simples delegado, mas de uma dimensão política mais forte.
Tatiana Merlino – Que era um torturador?
Frei Yves - Sei lá se era torturador.
Lúcia Rodrigues – O senhor não sabia que ele era um torturador?
Frei Yves - Escuta aqui. No Araguaia, por exemplo. O soldado que foi mandado para lá, para restabelecer a ordem. Se matou alguém, ele era um torturador?
Lúcia Rodrigues - O delegado Fleury é um torturador. Existem pessoas que foram torturadas por ele e outras que viram companheiros sendo assassinados no pau-de-arara, inclusive.
Frei Yves - Então precisa de mais reza ainda. Precisa mais de reza do que outros.
Lúcia Rodrigues - Mas o senhor sabia que ele era um torturador?
Frei Yves - Eu sabia o que todo mundo sabe. Agora se vocês falam que ele era um torturador… Eu não sei. Eu não lembro, eu estava no Mato Grosso.
Lúcia Rodrigues - A morte dele saiu na TV.
Frei Yves – Mas você pensa que em Mato Grosso tinha TV?
Lúcia Rodrigues - Mas o senhor já estava em São Paulo.
Frei Yves - Eu sou muito amigo do Dom Paulo [Evaristo Arns]. Li todos os livros dele.
Lúcia Rodrigues - O Dom Paulo diz que ele é um torturador.
Tatiana Merlino - Então o senhor leu o Brasil Nunca Mais?
Yves Terral - Mas isso não tira o direito dele ter uma missa. Não pode ser negado esse direito.
Lúcia Rodrigues - O que nós estamos dizendo é da sua simpatia e da forma que foi colocado. O que surpreendeu foi o senhor ter rezado não por ele, mas em nome dele.
Yves Terral - Eu faço isso em todas as missas. Praticamente faço isso em todas as missas.
Fonte: Ag. Brasil de Fato